Quando um filho inicia o percurso sombrio do uso abusivo de substâncias psicoativas, algo silencioso e igualmente devastador começa a acontecer ao redor dele. A mãe passa a dormir com o ouvido apurado na direção da porta. O pai reorienta seus dias em torno de crises. O cônjuge aprende a mapear humor, hálito e olhar com uma precisão que nenhum especialista precisaria ter. Lentamente, sem que ninguém ao redor perceba, e, mais grave, sem que a própria pessoa perceba, a vida dessas pessoas para de pertencer a elas. Elas se tornam, na expressão mais precisa que a clínica logrou cunhar, codependentes: aquelas que, ao tentarem salvar o outro, se perdem de si mesmas, dissolvendo identidade, autonomia e discernimento em um vínculo que, embora nascido do amor, se distorce até o ponto de não mais nutrir, mas aprisionar.

O Grupo Familiar Corae nasce exatamente desse reconhecimento, generoso e urgente, de que há um lado da dependência química que quase nunca recebe luz suficiente. Mães, pais, filhos, companheiros, aqueles que ficam e sustentam, que insistem e carregam, também adoecem. Adoecem de um adoecimento específico, sutil, que a medicina levou décadas para nomear e que a psicologia ainda está aprendendo a tratar com a profundidade que merece. A codependência não é fraqueza. Não é excesso de amor destituído de razão. É um estado de captura do eu pelo caos do outro, um fenômeno no qual o sujeito perde, progressivamente, a condição de agir a partir de si mesmo, e passa a existir apenas como função da crise alheia. É nesse cenário que me proponho, nestas páginas, a apresentar a Filosofia não como ornamento intelectual reservado a salões acadêmicos, mas como instrumento terapêutico genuíno, dotado de método, de tradição e de potência transformadora; e faço isso com a convicção de quem, ao longo de anos de estudo e de prática de orientação filosófica, aprendeu que o pensamento bem conduzido tem o poder de desatar nós existenciais que resistem, com obstinação, a outras formas de intervenção.

Para compreender por que a Filosofia ocupa esse lugar singular, é necessário, antes, compreender o que está verdadeiramente em jogo na codependência. Conforme compreendida pela literatura especializada e pelos protocolos do Ministério da Saúde, a codependência é uma resposta disfuncional ao estresse familiar crônico provocado pela convivência prolongada com a dependência química. O codependente desenvolve comportamentos compulsivos de controle, vigilância e proteção do dependente, abdicando progressivamente de suas próprias necessidades, desejos, saúde e identidade. Acredita, no fundo, que pode, sozinho, com força de vontade e dedicação suficientes, impedir a recaída, reverter o quadro, salvar o outro. E é justamente essa crença, por mais nobre que pareça em sua origem afetiva, que o mantém preso em um ciclo exasperante de exaustão, culpa e perda de si. O que torna esse quadro particularmente resistente às intervenções convencionais é que ele não se manifesta como fraqueza visível. Manifesta-se, ao contrário, como excesso de cuidado, como sacrifício constante, como abnegação que, aos olhos do mundo e até aos olhos da própria pessoa, pode parecer virtuosa. O familiar codependente raramente se reconhece como alguém que precisa de ajuda; ele se percebe, antes de tudo, como alguém que dá. E é exatamente nesse ponto que a Filosofia tem condição singular de intervir.

A tradição filosófica tem, desde seus primórdios, uma vocação que a distingue radicalmente de outras disciplinas: ela não oferece respostas prontas, não prescreve condutas, não classifica sintomas. Ela ensina a perguntar. E a pergunta mais antiga, mais radical, mais transformadora que a Filosofia já produziu é também a mais simples: quem sou eu? Sócrates, ao percorrer as ruas de Atenas interrogando seus concidadãos acerca de suas certezas mais arraigadas, descobriu algo perturbador: a maioria das pessoas vivia como se soubesse quem era, mas não havia se debruçado, sequer uma vez, sobre essa questão com rigor e honestidade. O cuidado de si que ele propunha como fundamento irrenunciável da vida boa não é, convém reiterar, egoísmo ou indiferença ao outro; é a condição de possibilidade de qualquer relação genuína. Não é possível oferecer ao outro aquilo que não se possui. Não é possível cuidar com verdade sem antes saber quem cuida, de onde cuida, com quais recursos e, sobretudo, com quais limites. Para o familiar codependente, essa interrogação socrática tem efeito de revelação, porque a codependência, em seu núcleo mais profundo, é precisamente uma suspensão do eu, a decisão, com frequência inconsciente e progressiva, de colocar entre parênteses a própria existência para orbitar, sem descanso, ao redor da existência do outro. Devolver a essa pessoa a pergunta pelo seu próprio ser, com delicadeza e método, é o primeiro e mais fundamental movimento que a Filosofia pode oferecer ao processo de recuperação.

Aristóteles, na Ética a Nicômaco, distinguiu com precisão os diferentes modos do amar, identificando na philia perfeita, a amizade fundada na virtude, a forma mais elevada de relação entre seres humanos, aquela que deseja o bem do outro enquanto outro, sem transformá-lo em extensão de si mesmo, nem a si mesmo converter em instrumento da existência alheia. Essa distinção, aparentemente abstrata no plano da teoria ética, possui implicações práticas de grande densidade para quem convive cotidianamente com a dependência química. O familiar codependente ama, em geral, com intensidade e autenticidade genuínas; porém, a dinâmica própria da codependência perverte esse amor: ele deixa de desejar o bem do outro enquanto outro e passa a precisar do outro para existir, para se sentir útil, necessário, presente. O dependente e o codependente entram em uma dança trágica e simétrica, um usa a substância para suportar a existência; o outro usa o caos do primeiro para se sentir indispensável, e quando o dependente melhora, não raramente o codependente desestabiliza, pois perde o eixo ao redor do qual havia construído a própria vida. Refletir sobre essa dinâmica à luz da ética aristotélica não é exercício meramente teórico; é, antes de tudo, um gesto de libertação. Ao perceber que o amor verdadeiro supõe limites, que desejar o bem do outro inclui não resolver por ele as consequências de suas próprias escolhas, o familiar começa a reconquistar sua agência moral e a compreender que estabelecer fronteiras não é abandono, é, paradoxalmente, uma das formas mais honestas e corajosas de amor.

Outro traço devastador da codependência, e que a Filosofia tem recursos particulares para endereçar, é a culpa. O familiar acredita, com frequência perturbadora, que poderia ter feito mais, dito diferente, agido antes. Carrega o peso do desenvolvimento da dependência alheia como se fosse, em algum sentido profundo e irrecorrível, responsável por ela. A filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre oferece, nesse ponto, um antídoto de rara precisão. Para Sartre, cada ser humano é condenado a ser livre — a liberdade não é uma conquista opcional, mas a condição ontológica de qualquer ação humana — e cada pessoa responde por suas escolhas porque as realiza a partir de sua própria consciência, por mais que o contexto as condicione, as pressione ou as limite. Isso não equivale à indiferença ao sofrimento alheio; significa reconhecer, com honestidade filosófica, que não é possível viver pelo outro, nem escolher no lugar dele, nem de fato impedi-lo de destruir-se se for essa a sua escolha. O familiar codependente frequentemente carrega uma culpa que não lhe pertence, porque assumiu, de maneira existencialmente equivocada, que é responsável pela liberdade e pelas consequências das escolhas do outro. Devolver a cada ser humano o peso e a dignidade de sua própria liberdade é um dos movimentos mais libertadores que o trabalho filosófico pode proporcionar, e é também um dos mais difíceis, porque implica soltar aquilo que o codependente aprendeu, ao longo de anos, a segurar com toda a força.

Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas, psiquiatra e filósofo de alcance universal, desenvolveu a logoterapia a partir de uma intuição central cuja potência se mantém intacta: o ser humano é capaz de suportar qualquer como desde que encontre um porquê. O sofrimento destituído de sentido esmaga e aniquila; o sofrimento dotado de sentido transforma e, em casos extraordinários, eleva. Para o familiar de um dependente químico, a busca pelo sentido não é questão espiritual ou psicológica apenas; é uma questão filosófica de primeira ordem. Por que continuar cuidando de si mesmo em um ambiente de caos permanente? Por que estabelecer limites quando a culpa parece insuportável? Por que apostar na própria existência quando o outro, ao lado, se desfaz? A Filosofia, e nesse ponto a orientação filosófica praticada no espaço do Corae tem papel central e insubstituível, pode ajudar cada familiar a articular, de forma consciente e genuinamente autoral, uma resposta a essas perguntas. Não uma resposta importada de protocolo, mas uma resposta construída de dentro para fora, enraizada na história singular daquela pessoa, em seus valores, em sua visão de mundo, em seus afetos mais fundos. É esse sentido construído a partir de si mesmo que resiste às recaídas, às crises noturnas, às manhãs de esperança renovada e aos dias em que a esperança não aparece.

Nesse ponto, é imprescindível distinguir a orientação filosófica da psicoterapia e do acompanhamento psiquiátrico, não para hierarquizá-las, mas para compreender a especificidade da contribuição filosófica no campo da saúde mental. A Filosofia Clínica, desenvolvida no Brasil pelo filósofo Lúcio Packter e aprofundada por vasta tradição de pesquisadores, parte do pressuposto de que cada ser humano é radicalmente singular em sua história, em seus valores, em suas estruturas de pensamento e em sua relação com o mundo. O orientador filosófico não diagnostica, não interpreta o outro a partir de categorias nosológicas fixas, não conduz o processo de fora para dentro; ele convida o outro a se ler, a se narrar, a se compreender a partir de si mesmo. No contexto da codependência, essa abordagem é especialmente poderosa porque permite ao familiar sair do papel de “familiar de dependente”, papel que a dinâmica do adoecimento, com o tempo, faz parecer o único possível, e se perceber como sujeito pleno, com uma história que antecede o vício, com valores que merecem ser revisitados, com horizontes existenciais que o caos do lar abalou, mas não eliminou.

É nessa perspectiva que atuo, no Grupo Familiar Corae, como orientador filosófico: não como aquele que detém as respostas, mas como aquele que caminha junto, que formula as perguntas necessárias, que sustenta o espaço de reflexão com paciência, sem pressa e sem julgamento. O trabalho filosófico com familiares de dependentes revela, ao longo do tempo, alguns horizontes que se mostram recorrentes e fundamentais. O primeiro é o retorno à identidade: quem era eu antes de assumir esse papel? O que eu valorizo? Do que gosto? A que prazeres e projetos renunciei em silêncio? Esse retorno não é regressão nostálgica; é fundação é o resgate das raízes a partir das quais uma nova existência pode ser construída. O segundo horizonte é o da autonomia, compreendida não como isolamento afetivo, mas como a capacidade de agir a partir de si mesmo, de escolher conscientemente, de dizer não quando necessário e sim quando verdadeiro, sem que o peso da culpa dite a resposta antes mesmo que a consciência a formule. O terceiro horizonte é o da compaixão de si, essa capacidade, rarissimamente cultivada em quem se dedicou anos a cuidar do outro, de olhar para a própria dor com a mesma generosidade, com a mesma delicadeza, com a mesma paciência que se oferta ao sofrimento alheio.

O quarto e último horizonte, talvez o mais sutil e o mais filosófico de todos, é o da esperança compreendida como ato consciente e voluntário. Não a esperança ingênua que aguarda a transformação do outro para então recomeçar a viver, mas a esperança ativa, aquela que Ernst Bloch descreveu como princípio ontológico do ser humano, como tensão orientada para o possível, que aposta na própria vida agora, neste momento, independentemente de como o outro escolhe existir. Cultivar essa esperança, sustentá-la mesmo quando o ambiente a desmente, é talvez o gesto mais radical de resistência e de afirmação existencial que um ser humano pode realizar. E é, também, a razão mais profunda pela qual o Grupo Familiar Corae existe: para que ninguém precise cultivar essa coragem sozinho. Porque amar alguém, como o próprio nome do grupo anuncia com precisão e beleza, exige, invariavelmente, coragem.

Prof. Dr. Marcelo Henrique de Carvalho
Orientador Filosófico
Grupo Familiar Corae

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